Publicado em 06 de outubro de 2026
Infomoney

Pesquisa com 760 funcionários revela uma verdade incômoda sobre o trabalho remoto

O apelo do trabalho remoto não é segredo para ninguém. Nada de ficar horas no trânsito ou encarar um transporte público lotado para chegar ao escritório já cansado. Em vez disso, você trabalha de casa, muitas vezes de roupa confortável, ao lado do seu cachorro ou gato. E, se terminar as tarefas mais cedo, pode usar esse tempo para colocar a roupa para lavar, dar uma organizada na casa ou relaxar assistindo a uma série. Para muita gente, isso parece bem melhor do que perder tempo em conversas de corredor no escritório.

Mas calma. Algumas dessas conversas das quais você ficou feliz em se livrar talvez também tivessem uma função importante.

Uma nova pesquisa de Peter Cappelli, professor de gestão da Wharton, e Y. Jasmine Wu, professora de comunicação da Universidade do Texas em Austin, sugere que o trabalho remoto pode enfraquecer o chamado “capital relacional”. Em outras palavras, trata-se de saber a quem recorrer quando você precisa de ajuda, sentir-se à vontade para pedir apoio e contar com alguém disposto a responder. Talvez você não sinta falta do papo de elevador. Mas pode sentir falta da facilidade de tirar uma dúvida rapidamente com alguém da equipe.

Para o estudo “How Remote Work Is Reshaping the Office” (“Como o home office está transformando o ambiente de trabalho”, em tradução livre), publicado em julho na California Management Review, Cappelli e Wu realizaram 38 entrevistas em grupo, no fim de 2023, com cerca de 760 funcionários de uma multinacional do setor financeiro com operações nos Estados Unidos, Reino Unido e Índia.

Quando os funcionários diziam que o trabalho estava sendo entregue, geralmente estavam falando das próprias metas e indicadores de desempenho. Já ajudar um colega ou ensinar um novo funcionário a entender os processos da empresa era algo mais fácil de deixar para depois. Essas atividades dependiam muito mais de relações pessoais do que de uma obrigação formal do cargo, e os pesquisadores observaram que esses laços estavam enfraquecendo.

Enviar uma mensagem era simples. Conseguir uma resposta rápida nem tanto. A empresa incentivava o uso do Microsoft Teams, mas, enquanto alguns respondiam prontamente, outros priorizavam as próprias entregas. Muitos adotavam uma postura do tipo: “Se meu expediente já acabou, respondo amanhã.”

Conhecer alguém fazia diferença. Os pesquisadores descobriram que os funcionários conseguiam ajuda mais rapidamente quando procuravam colegas com quem já tinham algum relacionamento. Caso contrário, as respostas tendiam a demorar mais. Isso era particularmente difícil para quem estava chegando à empresa, um problema que Cappelli já havia apontado anteriormente em relação a profissionais em início de carreira. No estudo, um funcionário contratado havia pouco tempo e sem vínculos dentro da organização relatou ter passado três meses tentando conseguir uma resposta.

Os autores descrevem um ciclo negativo: quando as respostas demoram, as pessoas ficam menos inclinadas a pedir ajuda novamente, o que enfraquece ainda mais os relacionamentos profissionais.

Mais reuniões também não significavam necessariamente mais conexão. Os funcionários relataram reuniões virtuais maiores em que muitos participantes mantinham a câmera desligada e aproveitavam para fazer outras tarefas. Em alguns casos, isso gerava a necessidade de novas reuniões para recuperar informações perdidas. Cappelli e a coautora Ranya Nehmeh fizeram uma crítica semelhante no livro In Praise of the Office, argumentando que o trabalho remoto está tornando as jornadas mais longas e as relações profissionais mais transacionais.

 

Quem ganha com o trabalho remoto

Nem tudo são desvantagens. Alguns entrevistados enxergaram a redução da interação presencial como algo positivo para mulheres, minorias e pessoas mais introvertidas. Além disso, trabalhar de casa pode facilitar a concentração, desde que o profissional tenha um ambiente adequado para isso.

Se os funcionários gostam tanto do home office, um modelo híbrido não seria a solução perfeita para equilibrar flexibilidade e convivência? Não necessariamente da forma como essa empresa colocou o modelo em prática.

A partir da pandemia, os gestores passaram a focar quase exclusivamente nas entregas individuais. A empresa também reduziu o espaço físico dos escritórios para cortar custos, o que deixou pouco espaço para acomodar todos nos dias presenciais. As mesas compartilhadas dificultaram a convivência frequente com os mesmos colegas, e as regras de comparecimento eram aplicadas de forma irregular. Não era raro alguém enfrentar o deslocamento até o escritório e descobrir que os colegas com quem precisava interagir não estavam lá.

Os autores reconhecem que as entrevistas, por si só, não provam que o trabalho remoto foi o responsável por esses problemas, embora acreditem que ele tenha contribuído para isso. O estudo também não permite afirmar o quão disseminadas essas situações são. Eles observam ainda que a cultura de priorizar o bem-estar individual, fortalecida durante a pandemia, também pode ter influenciado esse comportamento.

Para ajudar os profissionais a reconstruir conexões, os pesquisadores recomendam coordenar melhor os dias presenciais para que equipes e colegas que dependem uns dos outros estejam juntos no escritório. Também sugerem atividades coletivas nesses dias e processos de integração mais estruturados para novos funcionários.

Ajudar colegas é algo essencial para o funcionamento de qualquer empresa e, por isso, não deveria depender apenas da boa vontade ou da amizade entre as pessoas. Cappelli e Wu defendem que colaborar com colegas e orientar novos profissionais faça parte das descrições de cargo e dos critérios de avaliação de desempenho, para que essas atividades não sejam deixadas de lado no trabalho remoto. As promoções, acrescentam, também deveriam levar em conta mais do que apenas metas e indicadores individuais.

Cappelli, que a revista Fortune já chamou de “o grande contraponto da Wharton”, faz questão de dizer que não é contra o home office. “A ideia de que o trabalho remoto é obviamente uma coisa boa não é verdadeira”, afirmou ao Knowledge at Wharton.

Os funcionários “pareciam valorizar muito a possibilidade de trabalhar de casa”, escreveram os autores. O desafio para as empresas é equilibrar a flexibilidade desejada pelos profissionais com o nível de colaboração necessário para os negócios. A roupa pode até continuar sendo o moletom. Mas ajudar um colega continua fazendo parte do trabalho.

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